terça-feira, 9 de agosto de 2016

O nome dela é Maya


Ontem à noite eu quis te conhecer.
Imaginando-te sensível e amável, eu quis saber de ti. 

Mas em meus sonhos nunca consigo ver teus olhos.

Fui a dormir, e neste mistério encantado acordei sabendo do meu novo amor. Sentimento tenro, pois medito sobre ti e admiro tua figura, imagino tua fragância, mas não penso em te possuir. Penso em ti e agradeço a Deus porque tu existes. 

Mas também não me importa se sabes de mim. Esta carta tu não receberás.

Na longa estrada do desengano, eu dobro a esquina à esquerda e me contento, plácido, com meu sóbrio desalento.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Rod Modell Hare Krisna

A ideia por trás de um simples gif é que ele seja repetível infinitésimas vezes, e que isso seja suficiente para uma apreciação hipnótica que baste por si só. Para que cada detalhe dos pixels e também da ideia ou conceito possam ser contemplados até à catarse, é necessário atenção.

Este é o fundamento também da música erudita minimal (Erik Satie, Ärvo Part, Steve Reich), da música eletrônica digital que se utiliza de loops para acontecer (techno em sistemas computadorizados de inteligência artificial programada - Juan Atkins em Detroit e Richard D. James na Inglaterra); ou analógica (hip-hop no MPC), mas também dos mantras religiosos que possibilitam a aproximação ao divino através da repetição. Entre estes compositores-produtores, há uma figura excedente.

Rod Modell frequentou anos a fio sessões musicais em que o maha-mantra sagrado é cantado diariamente, e cantado à exaustão, pelos diligentes discípulos do Senhor Krishna. Um profeta sagrado cujo nascimento é datado a 33 séculos a.C. Uma das almas perfeitas que assim como Jesus de Nazaré passou pelo plano tridimensional da matéria para nos deixar recados. Entre estes, Bhagavad Gita e a Bíblia.

Entre brasileiros, o índio que cotidianamente traz Deus ao chão da aldeia através do canto do pajé. Invasão de terras demarcadas e massacre.  No mundo, intolerância religiosa e falta de fé; espiritualidade: igual a nada vezes nada, isto é, 0 à esquerda. 

Mas para o discípulo religioso não é necessário nenhum loop já não-contido no Livro ancestral dos cantos, e no inalterável ritmo das contas do rosário a voz humana combina Tua consciência com a de Deus. Vá e veja. 

Mas e quem não foi lá, ou já foi mas não pode lá viver por mais que alguns anos? A vida profana se impõe, e é capital se'nvolver na Grande Sociedade. Muitos prazeres, que eu gosto. Quem não pode se sacode. Aí de mim! Para nós buscadores, mas também apreciadores do som profundo, Rod Modell fornece o mais sofisticado design sonoro que há.  Techno silente, frutífero do luxo meditativo, estabelecido na tradição do dub para as massas.

Aleluia!

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Conto: "Um mundo invisível revelado"

Esta noite após todas as luzes haverem sido apagadas, deitei na cama e percebi o vulto se formando a partir das sombras que se acumulavam na mobília. Um espectral de cor negra, forma humana espessa, densa e muito alta que se expandia magramente do chão até o teto.

Eu, que tenho por costume projetar minha mente para fora do corpo físico durante o sono, e me observar o corpo lá embaixo no leito repousando, vi esta sombra aproximar-se de mim a passos largos e, num golpe, fazer-se penetrar pelas minhas narinas. Meu corpo físico sofreu um solavanco mórbido, engasgando-se enquanto sugava garganta adentro o longo espectral como fumaça tóxica.

Mas que era aquele ente sombrio dotado de movimento e aparente vontade própria? Alguma espécie de demônio devasso desejoso de comer minha mente e nela introduzir desvirtudes como a vadiagem e mesquinharia, ou um serviçal das trevas que, vendo meu potencial para as boas ações, estava na missão de me sonambulizar e se utilizar do meu corpo para atrocidades indizíveis?

Elevado e superpotente acima da casa que aparecia a mim com teto e paredes transparentes, eu via minha irmã caçula ainda acordada no quarto ao lado, indefesa, e minha mãe já dormindo profundamente, afastada de nós, lá embaixo. 

A substância azul translúcida que fluia gravitacionalmente do meu corpo astral até o corpo físico, alimentando a mente e o sonho, de súbito se escasseou, e passei a ver borrões muito distantes e incertos. Apaguei como espírito e acordei dentro de mim mesmo, como uma personagem no sonho arquitetado por aquela criatura perversa.

A imagem pisca e oscila, como interferências de um filme antigo. Chuva negra caindo por cima de um labirinto com colunas de espinhos, onde a treva é absoluta. Uma passagem larga, abrindo caminho por entre paredes de roseiras petrificadas até uma catacumba branca de porcelana, iluminada pela última luz que sobrevive pálida e oscilante no poste. Chão enlameado repleto de vermes malditos, e sobre a lápide um lírio fechado, ninho para duas lagartixas acinzentadas que se entrelaçam e mastigam vagarosamente a cauda uma da outra. 

Garota lésbica com problema psicológico abre o túmulo, e dele emerge um punhado de moscas caçadoras graúdas e verdes, a zunir e se debater contra minha testa úmida. Quem apodrece ali é a minha mãe, com o mesmo rosto e mesma expressão que tem hoje quando dorme.

O farfalhar de dois corvos vindos da árvore. Pousam no parapeito do sarcófago atrás da cabeça da mulher. Silêncio dramático - as aves entreolham-se. O primeiro, de um pequeno salto, pula na testa do cadáver e experimenta a textura dos olhos com a garra enquanto chuva escorre pelas rugas carrancudas. O segundo corvo voa até o pescoço, cutuca por dentro do nariz e retira um verme marrom, longo mas fino, que se retorce no bico. Debulham o rosto da pessoa até não existir mais nada que se assemelhasse ao corpo que um dia foi animado por uma alma, mas que agora não é mais que substrato orgânico, adubo para a vida. 

Toda a paisagem some, e me vejo suspenso num grande vácuo sem nada à minha volta. O maravilhoso Satã aparece sobre duas pernas a mim. Seus chifres lustrosos e grossos são consolo a uma colônia de súcubos, nuas em pelo - corpos femininos de toda variedade que cirandeiam e se insinuam com volúpia no olhar. O pênis pende flácido até a altura do joelho, voltado com a cabeça vermelha e pulsante para fora. Os colhões são quase que ocultados completamente por uma bolsa de pelos escuros. Seus seios são tenros e rosados, onde mamam lascivamente e se esfregam os incontáveis e pequenos íncubos. Todo o corpo de Satã exala luxúria, lubrificado em fluidos luxuriantes de seu fértil exército. 

-"O que mais queres tu para além disso, soldado? Não caias em delírio. Apenas aceita, garoto, e vai tu para casa, e transa tuas mulheres, bebe teu licor e goza a tua vida sórdida de animal humano.  Não te preocupes: transa, bebe, goza a vida! Sejais o autor da tua própria Lei, e na hora de morrer, morre dignamente como aquele que sabe não haver nada para além da carne - nem abaixo nem acima! Querer mais é pedir o impossível. Ou pensas tu que o espírito sobrevive à matéria? Gostas de te iludir? Desprezível humano cujas verdades que acata não são mais do que mentiras que conta a ti mesmo a fim de conseguir conforto à hora de dormir, e motivação para acordar."

Solapado pela dúvida, eu não pude pensar. Não conseguia entender que o que se passava ali eram cenas oníricas de um sonho mau. Portanto fiquei perplexo quando uma luz irradiou aquela escuridão como gládios de claridade. Levei as mãos aos olhos por instantes até que a intensidade da luz diminuísse, e na fonte de onde irradiava a iluminação eu A vi. Como posso defini-lá? Não uma pessoa, mas sim uma sensação, que por vezes já havia deleitado a mim noutros sonhos, mas nunca assim tão radiantemente. Algum elo entre o plano do sonho e uma realidade transcendental para além do próprio sonho, da qual após o despertar restava apenas uma leve sensação de amor tão profundo e incomensurável. Sim, Ela. Traduzo-a como a Fé. Eu A senti, no sonho mesmo, e Ela me disse:

-"O teu sofrimento será o maior de todos, garoto. Tu sofrerás na carne e no espírito, portanto acostuma-te a sofrer. Em todos os teus dias a matéria há de te castigar, a necessidade de movimento cairá sempre sobre teus braços e tuas pernas, tu terás sempre de ir em busca de algo em algum lugar.  O peso de existires e saberes que tu existes nunca te abandonará. Tu sempre estará consciente e pensando. E quando deitares no colchão, a insônia perseguir-te-á, tua respiração não aquietará e tu não terás descanso. E quando a luz da manhã finalmente começar a raiar, conseguirás teu sono, mas mesmo em sonho tu ainda vais estar consciente de que existe e teu sono será apenas um estado de vigília noutra dimensão. Aceita isso! Mas eu digo o que tu és: tu és um perceptor. É pelos olhos teus que Deus pode tão nitidamente Se ver. Esta é a chave que te dou: tu fica sabendo agora que todo pensamento passa, e que tu não és os pensamentos que acontecem pela tua cabeça. Como perceptor, tua única obrigação é a de te colocares e te impor da maneira mais justa possível diante das situações em que te encontrares. Este teu corpo é como uma folha de papel em branco, os pensamentos que ocorrem a ti são as palavras escritas mas que logo se apagam, e a soma das tuas páginas é o caderno guardado na infinita biblioteca divina. Agora, acorda!"

E foi assim que eu fui libertado daquela estranha aparição de trevas. No dia seguinte fiquei sabendo que o vizinho havia se enforcado naquela mesma noite; sua personalidade imaterial atormentada e recém-departida do corpo físico provavelmente atraiu para cá aquele Elemental corrupto.

E foi assim também que recebi meu primeiro chamado místico, isto é, um contato íntimo com as maravilhosas emanações de pureza que existem nativamente dentro de mim mesmo.

Idiossincráticas fotografias de um garoto que agora é apaixonado por si mesmo :3





















Pagando de gatinho



O que será que ele está pensando?


Hmm...corpinho :3


Resenha do livro "Skagboys" de Irvine Welsh

Este livro do Irvine Welsh é muito divertido, um entretenimento de primeira categoria, para o qual vale a pena se debruçar várias horas de uma leitura casual. Narra a história pregressa de Spud, Mark Renton, Begbie e Sick Boy, antes do que já conhecemos através do primeiro livro da série Trainspotting. 

Quando na década de 80 numa Escócia filha do tatcherismo e terreno de greves operárias, adolescentes nascidos nos blocos habitacionais, sem emprego nem nada que se preze para fazer, adotavam excessivamente o estilo de vida de "que se foda" do rock'n'roll e assumem uma postura de auto-destruição, como maneira egotística de protesto e fórmula escapista para uma falta de ambição.

Irvine Welsh, junkie como foi, e habilidoso romancista versado na cultura pop, expõe com humor, sem tabu e nem moralismo, os extremos de toda uma geração, através das vozes em primeira pessoa de suas irresistíveis personagens. 

De uma preliminar contextualização sócio-política verossímil e fiável, o autor vai trabalhando cada aspecto da vida das personagens, para mostrar como o caminho da dependência na heroína, e drogas pesadas em geral, é trilhado em linhas individuais que refletem a personalidade do usuário, seus dramas existenciais, o contexto familiar e político que o rodeia e, principalmente, uma tendência ao vício que é proporcional ao niilismo e falta de vontade da pessoa. 

Como deve ser, o assunto da heroína é tratado primeiro como problema de saúde pública, depois como um estilo de vida glamouroso porque decadente - já que "todo junkie é como um poente"- divulgado por ídolos da cultura pop num repertório infindável de álbuns e filmes de cultura pop.

A droga não aparece daquela maneira maniqueísta e moralista tão comum aos noticiários e ao senso comum, como se a substância fosse capaz de ter vontade própria e deliberadamente atrair  a vítima através de suposto magnetismo químico pelo caminho da perdição.

Mas também não é só isso, já que a heroína é uma curtição danada, ou seja, se não fosse um barato tão bom e indescritível, não teria tanta gente usando e tanto filme e tantos álbuns de música sobre a rainha das drogas. É essa atmosfera que Irvine Welsh consegue criar de forma tão autêntica: realmente se consegue sentir como deve ser andar pelas ruas chuvosas dos bairros antigos da Escócia, na fissura, atrás de um punhado da marronzinha. O primeiro contato com a heroína em cachimbo num baile northern soul. As falcatruas, invasão de propriedade só pela adrenalina, as sangrentas brigas de gangue com pano de fundo nos clubes locais de futebol. As luzes de Londres, a legalidade de Amsterdã. Ouvir uns LPs debatendo música com os parceiros e as gatinhas num mocó. Ou mesmo os efeitos nocivos da droga, a abstinência que esmigalha os ossos, o estômago enrijecido e a falta de apetite, a perda de peso, o rosto que fica chupado e seco, o dentes que apodrecem. Tudo isso Irvine Welsh tem.

Um livro com o qual certamente podem se identificar o junkie e sua família, bem como o próprio traficante, o artista oportunista mas também o psicólogo ou assistente social da clínica de reabilitação.

Meu amor

Hoje, pensando Nela,  realizei que, embora minha única experiência de relação amorosa com pessoa humana real tenha sido fracassada, isto é, que tenha estado aquém das expectativas idealizadas e impossíveis que eu nutria (o que é justo e consiste no preço a ser pago pela ingenuidade de minha jovem idade), meu amor, o mesmo mas aperfeiçoado - amplo e distribuível, intenso mas controlável, continua a existir ainda no meu peito pulsando vermelhantemente como nunca. O fato é que estou cheio dele, e enquanto meu amor me transborda eu contemplo outréns com minhas simpatias.

Assim seja.

Fragmento meditativo e político

As atividades não precisam ser realizadas com truculência, na chamada correria, ou com a agitação de mãos afobadas e mente confusa. Certos indivíduos assim o fazem para atribuir maisvalor às suas ações, como se um corrupto ideal de produtividade lhes estrangulasse as intenções - a fundação de uma personalidade bitolada.
Que não se enganem os neófitos, pois todo o trabalho deve ser feito fácil, com o desfrute relaxado de regozijo em competência e bem-estar, como um Deus que dança e festeja e bebe todo o leite coletado por devotos que trabalham e separam do trabalho o tempo da diversão. Assim já partilhou o jovem Tommy Bolin quando disse que "Se você não estiver se divertindo ao fazer, não vale a pena fazê-lo."
Esta consideração desmascara uma malfadada Teoria Crítica da Sociedade, cujo comodismo de intelectuais no centro do mundo constrange e tenciona o infeliz estudante a veredas incertas e áridas, de uma suposta lógica do esclarecimento que, em verdade, é tentativa de imposição elitista da visão de mundo inflexivelmente tendenciosa desses intelectuais que travestem de objetividade científica sua própria amargura e aflição. 

A imagem do desafortunado militante que almeja uma sociedade mais justa, embora não consiga obter sequer a própria paz em seu espaço interior, e perambule acompanhado por uma nuvenzinha negra a chover e trovejar sobre sua cabeça somente.

Nos jardins regulares dos cemitérios também nascem flores, mas elas são malditas e exalam o perfume mórbido da morte.

A questão que ocorre a toda a teoria revolucionária quando vista de fora é: seria possível oferecer a outrem mais do que aquilo que se possui para si mesmo?

Que me importa?
Como girassol que cabisbaixa quando o sol se põe ao Ocidente, eu murcho também quando me percebo palavrando assim, como estudante de Ciências Sociais.