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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Fichamento do livro "A Doutrina de Buda"

O Demônio das paixões mundanas está sempre procurando ludibriar vossas mentes.Se uma víbora morar no vosso quarto, não podereis ter um sono tranquilo se não a expulsardes.

Atentai a este fato: Buda não é um corpo físico, é a Iluminação. O corpo físico perece, mas a Iluminação subsistirá para sempre na verdade do Dharma e na prática deste. Aquele que apenas vê o meu corpo não me vê realmente. Somente aquele que aceita meu ensinamento consegue me ver.

Comentário: quando se desprendeu do corpo, a consciência do Buda, iluminada nos caminhos do pós-morte, aliviou-se para além do espaço-tempo.

A obra de Buda é tão perene quanto é infindável o erro dos homens. Assim como a profundidade do erro é insondável, a compaixão de Buda não tem limites.

O Buda Eterno

Homens creem que Buda nasceu como Príncipe e que, como monge mendicante, trilhou o árduo caminho da Iluminação. Não obstante esta longa preparação, Buda sempre existiu neste mundo, que não tem nem princípio nem fim.

É difícil conhecer o mundo como ele verdadeiramente é, pois embora pareça real, ele não o é, e embora pareça falso, ele também não o é. Os tolos não podem conhecer a verdade a respeito do mundo.

Somente Buda conhece, verdadeira e completamente, o mundo como ele é. Ele o mostra, nunca dizendo que ele é real ou falso, que é bom ou mal.

Parábola do pai que mente sua morte para os filhos para que eles tomem o remédio e se curem.

Não se deve condenar a mentira deste pai médico pois Buda é como este pai: Ele também usa a alegoria da vida e da morte para salvar os homens que se vêem escravizados pelo desejo.

Comentário: este mundo não tem princípio nem fim.

O corpo de Buda é a própria Iluminação! Sendo amorfo e sem substância, ele sempre existiu e para sempre existirá. Não é um corpo físico nem deve ser nutrido. É um corpo eterno cuja substância é a sabedoria. Buda, portanto, é sem medo, sem doenças, eterno e imutável.

Comentário: sabedoria = luz, ignorância = trevas. Morte (desaparecimento do corpo) = renovação da vida, renascimento em condição de Buda.

Dharmakaya é a substância do Dharma, ou seja, a substância da própria verdade. Enquanto Essência, Buda não tem forma ou cor, Ele não vem e nem vai para lugar algum. Como o céu azul, Ele abarca todas as coisas e desde que tudo tem, de nada necessita. Em sua essência, Buda abrange todo o universo, atingindo todos os lugares, e existe eternamente, quer os homens nele acreditem ou duvidem de sua existência.

Sambhogakay significa que a natureza de Buda, o todo amorfo constituído pela Compaixão e Sabedoria, manifesta-se através dos símbolos do nascimento e da morte, através dos símbolos dos votos, da prática ascética e da sua revelação a fim de salvar todos os seres.

Nirmanakaya, que neste aspecto completa o alívio oferecido pelo Buda da Recompensa, significa que Buda se manifestou no mundo com um corpo físico e mostrou aos homens, segundo as suas faculdades, os aspectos do nascimento, da renúncia a este mundo e da aquisição da Iluminação. Neste corpo, Buda usa de todos os meios, tais quais a doença e a morte, para guiar os homens.

Sobre limitação da consciência humana à dualidade vida-morte:

Quando a lua se põe ao olhar dos homens, costuma-se dizer que ela desaparece e desponta, aparece. Mas na realidade a lua não aparece nem desaparece, brilha imutavelmente no firmamento. Buda é exatamente como a lua: não aparece nem desaparece, apenas parece fazê-lo assim para que possa guiar os homens.

Na realidade, a verdadeira natureza de todas as coisas transcende as distinções entre nascimento e morte, entre início e fim, entre bem e o mal. Todas as coisas são sunyata e homogêneas.

Discriminações ignorantes:

Por causa da ignorância e das falsas interpretações, os homens criam discriminações, que na realidade não existem. Inerentemente, não existe discriminação entre o certo e o errado no comportamento humano, mas os homens, por causa de sua ignorância, imaginam tais distinções, julgando-as como certas ou erradas.

Fazendo de seus atos o campo de satisfação do ego, nutrindo a mente de discriminações, anuviando-a com a tolice, fertilizando-a com a chuva dos desejos ardentes, irrigando-a com a obstinação do ego, os homens lhe acrescentam o conceito do mal e com isso carregam consigo mais este fardo de ilusão.

Na realidade, este corpo de desilusão nada mais é do que o produto da própria mente, assim como o são as ilusões da tristeza, a lamentação, o sofrimento e a agonia.

Comentário: tristeza, lamentação, sofrimento e agonia: produto mental.

Este mundo de erro não é senão a sombra causada pela mente. É de se notar, contudo, que é desta mesma mente que emerge o mundo da Iluminação.

Sobre Destino, Deus ou Acaso: a verdade da Lei da Causalidade.

Neste mundo há três errôneos pontos de vista. Primeiro, diz-se que toda experiência humana baseia-se no Destino; segundo, afirma-se que tudo é criado por Deus e controlado por sua vontade; terceiro, diz-se que tudo acontece ao acaso, sem ter uma causa ou condição.

Se tudo tem sido decidido pelo destino, tanto as boas como as más ações são predestinadas, a felicidade e a desdita também o são, nada existe sem que tenha sido predestinado. Se assim fosse, todo os planos e esforços para melhora ou progresso seriam em vão e à humanidade não restariam esperanças.

O mesmo se diga quanto aos outros pontos de vista, pois se tudo em última instância está nas mãos de Deus ou depende da cega eventualidade, que esperança poderá ter a humanidade nesta cega submissão? Não é de se admirar que os homens, crendo nestes conceitos, percam a esperança e não se esforcem para agir corretamente e evitem o mal. 

Sobre a estrutura da mente.

As atividades da mente não têm limite, elas criam as circunstâncias da vida. Uma mente corrompida cerca-se de pensamentos impuros, e uma mente pura, pelo contrário, cerca-se de cosas puras; disto se conclui que o ambiente ou as circunstâncias são tão ilimitáveis quanto o são as atividades mentais.
Nada exista no mundo que não seja criado pela mente.

Mas a mente que abriga a necessidade e a cobiça, que cria seus ambientes, nunca está livre de lembranças, temores e lamentações, não só do passado, como também do presente e do futuro.

A vida e a morte nascem da mente e nela existem. Daí, uma vez desaparecida esta mente, o mundo da vida e da morte também se extingue.

Um obscuro e desnorteado viver surge de uma mente confusa com seu mundo de ilusão. Quando aprendermos que fora da mente não existe nenhum mundo ilusório, a mente anuviada tornar-se-á clara, e se não mais nos cercarmos de ambientes impuros, estaremos prontos para alcançar a Iluminação.

Comentário: fora da mente ignorante, tudo é Luz e Verdade.

Deste modo, o mundo da vida e da morte é criado pela mente, a ela se sujeita e por ela é regido, a mente é o senhor de toda situação. O mundo do sofrimento é assim causado por uma mente mal orientada.

A forma real das coisas.

Desde que tudo no mundo é causado pelo concurso das causas e condições, não poderá haver nenhuma distinção básica entre as coisas. As aparentes distinções são criadas pelos absurdos e discriminadores pensamentos dos homens.

No universal processo da criação não há, inerentemente, distinções entre o processo da vida e da extinção, mas os homens fazem distinção chamando a um de nascimento e a outro de morte.

Buda se afasta destas discriminações e considera o mundo comum uma nuvem passageira. Para Buda, toda coisa definitiva é mera ilusão porque Ele sabe que tudo aquilo ao qual a mente se apega e despreza é sem substância, assim ele evita as ciladas das aparências e os pensamentos discriminadores.

Comentário: se a mente apega ou despreza é porque é ilusão.

Devido a esta constante mudança nas aparências é que comparamos as coisas a uma miragem ou um sonho. Da mesma maneira, pode-se dizer que as coisas são como ilusões, não podendo ser consideradas como existentes, nem como não-existentes.

Comentário: sim, porque na verdade o que importa é a mente!

Transcender a dualidade sujeito x objeto.

Além disso, é um erro identificar esta vida efêmera com a imutável vida da verdade. Também não se pode dizer que, ao lado deste mundo de mudanças e aparências, exista outro mundo de constância e verdade. Será erro também considerar este mundo como ilusório ou real.

Os tolos consideram a vida como existência ou não-existência, mas os sábios a consideram como lago que transcende a existência e a não-existência, mas os sábios a consideram como lago que transcende a existência e a não-existência; este é o procedimento do Caminho do Meio.

Os homens, habitualmente, relacionam-se a si mesmos e a tudo com o nascimento e a morte, mas, na realidade, não há tais concepções. 

Quando os homens compreenderem esta verdade, aperceber-se-ão da verdade da não-dualidade: do nascimento e da morte.

Os homens, porque nutrem a ideia de um ego, apegam-se à ideia de posse; mas, como não há um "eu", não pode haver um "meu". Se puderem compreender esta verdade, poderão, então, compreender a verdade da não dualidade.

O sábio aprende a encarar as cambiantes circunstâncias da vida, com uma mente imparcial, não se exaltando com o sucesso nem se deprimindo com o fracasso. Assim se compreende o princípio da não-dualidade.

Desde o mais remoto passado, sendo condicionados, homens ignorantes acreditavam que a mente discriminadora, que fica à base desta vida de nascimento e morte, fosse a sua verdadeira natureza; e não sabiam que, oculta pela mente discriminadora, eles possuíam a mente pura da Iluminação, que é sua verdadeira natureza.

A mente discriminadora está vazia de toda substância e está em constante mudança. Mas desde que os homens acreditam que esta é a sua verdadeira mente, as ilusões passam a ser parte integrante das causas e condições que produzem o sofrimento. 

Comentário: sim, a mente vulgar é discriminadora e está sujeita a causas e condições de ignorância. 
Neste sentido, Buda e Cristo foram ambos revelações divinas muito auspiciosas. O primeiro, mostrou o caminho puro para mente Iluminada, e o segundo mostrou aos homens que o espírito sobrevive ao corpo. Graças a Deus!

As confusões e o aviltamento da mente são criados pela cobiça, bem como pelas reações às suas mutáveis circunstâncias. Não se pode dizer que uma hospedaria desaparece, apenas porque o hóspede aí não é visto.

Comentário: Desejar coisas no futuro x cumprir o dever no presente: a mente é instável em seus desejos e humores, e o que é instável não pode ser real 

Somente a mente "temporária" tem diferentes sentimentos, de momento a momento, com as imutáveis circunstâncias da vida.

Comentário: homens (e mulheres rsrs) apegam-se a discriminações falsas (bem x mal, vida x morte,etc), e sofrem.

O corpo e a mente poderão desaparecer, mas a natureza de Buda não pode ser destruída.

Comentário: Corpo-mente:psicossomático - Espírito: Buda

Sobre a luxúria:

A luxúria fertiliza o solo em que outras paixões florescem. É como um demônio que devora todos os bons atos do mundo. A luxúria é a víbora oculta na flor do jardim e envenena aqueles que vêm à procura da beleza. É a trepadeira que se enreda na árvore, sufocando-a. A luxúria insinua seus tentáculos nas emoções humanas, e suga o bom senso da mente. A luxúria é como a isca atirada por um demônio: o tolo se deixa por ela fisgar e é arrastado para as profundezas do mundo do mal. 

Se um osso coberto de sangue for dado a um cão, ele o roerá até ficar cansado e frustrado. A luxúria é para o homem exatamente como o osso é para o cão; ela apenas o cansará e não o satisfará.

Do desejo nasce a ação, da ação surge o sofrimento, destarte, o desejo, a ação e o sofrimento são como uma roda que gira interminavelmente, condicionando o karma.

Sobre a vida humana:

Não importando se são ricos ou pobres, os homens se preocupam com o dinheiro; sofrem com a pobreza e sofrem com a riqueza. Nunca estão contentes ou satisfeitos, porque suas vidas são controladas pela cobiça.

Comentário: questão: morador de rua renuncia ao conforto e à riqueza, mas se pode dizer que estão afastados da cobiça?

O pobre sempre sofre com a insuficiência, e isto serve para despertar-lhe intermináveis desejos por um terreno, por uma casa. Inflamado pela cobiça, ele destrói o corpo e a mente e acaba morrendo na metade de sua vida.

Comentário: ignorância_discernimento_carência_insatisfação_cobiça. 

Bodhisattva: Com o surgimento do budismo mahayana, este termo foi utilizado para designar todos aqueles que se esforçavam para atingir o estado de um Buda (a perfeita sabedoria). Aqueles que tentavam conduzir os outros ao reino de Buda por meio de sua grande compaixão, enquanto eles próprios buscavam este objetivo.

Bodhisattva

Bodhisattva

A terra de pureza do Buda Amida brilha com a beleza e o ar vibra com as celestiais harmonias. Seis vezes ao dia e à noite, do céu caem pétalas de flores delicadamente coloridas, e os homens as recolhem e as levam a todas as outras terras de Buda, ofertando-as aos inumeráveis Budas.

O número daqueles que nascem em Sua Terra Pura, são perfeitamente iluminados e  jamais retornarão ao mundo de delusões e morte é incalculável.

Homens que com fé sincera e confiança poderão renascer na Terra da Pureza de Buda, sendo conduzidos por Buda Amida e muitas outras deidades que aparecem em seu derradeiro momento.

Purificação da Mente: cautela e tolerância para extinguir o fogo das paixões mundanas.

Ideias corretas baseadas em cuidadosa observação;
paciente controle do corpo e da mente;
respeito ao adequado uso das coisas;
tolerar desconfortos do calor e do frio, da fome e da sede;
aprender a ser tolerante;

Não há nenhum meio pelo qual se possa escapar da cilada das paixões mundanas. Suponhamos que você tenha apanhado uma cobra, um crocodilo, um pássaro, um cão, uma raposa e um macaco, seis criaturas de naturezas muito diversas, e que as tenha amarrado junto com uma corda e as tenha deixado ir. Cada uma delas tentará voltar às próprias tocas. Na tentativa de cada um buscar o caminho da fuga, haverá luta, mas, estando atados uns aos outros pela corda, o mais forte deles arrastará todo o resto.

Como as criaturas nesta parábola, o homem é tentado de diversas maneiras pelos desejos dos seus seis sentidos - olhos, ouvidos, nariz, língua, tato e mente - e é controlado pelo desejo predominante.

Se as seis criaturas forem atadas a um poste, elas tentarão fugir até se extenuarem. Assim, os homens deverão treinar e controlar a mente, para que não tenham preocupações com os outros cinco sentidos. Se a mente estiver sob controle, eles poderão ter felicidade não só agora, como também no futuro.

O homem que busca a fama, a riqueza e casos amorosos é como uma criança que lambe mel na lâmina de uma faca. Ao lamber a doçura do mel, a criança corre o risco de ter a língua ferida. É como o tolo que carrega uma tocha contra um vento forte; correndo o risco de ter o rosto e as mãos queimadas.

Estavam espalhando má fama sobre Buda e seus discípulos, o que dificultava que mendigassem alimento naquela cidade. Um discípulo queria alcançar outra cidade, mas Buda permaneceu na primeira, porque não sabiam se na outra a mesma calúnia poderia estar ocorrendo. Moral da história: não ser controlado pelo ambiente externo.

Viúva que tratava bem a criada, mas quando a criada propositalmente abdicou de acordar cedo, a mulher a torturou. Moral da história: Muitos homens são como esta mulher. Enquanto seus ambientes são satisfatórios, eles são bondosos, modestos e tranquilos, mas é duvidoso se continuarão a se comportar da mesma maneira, quando as condições mudarem e se tornarem insatisfatórias.

Somente podemos considerar boa uma pessoa se ela mantiver a mente pura, serena e continuar a agir com bondade, mesmo quando ouvir palavras desagradáveis, quando os outros lhe mostrarem má vontade ou quando estiver privada de suficiente alimento, roupas e abrigo.

Comentário: raiz do descontrole, seja quando se exalta e fica nervoso, ou quando se deprime e fica triste, ambos por influência de fatores externos agindo sobre uma mente desestabilizada.

"Nobre senhor" - respondeu Píndola - "o Bem-Aventurado nos ensinou a guardar as portas dos cinco sentidos. Quando vemos belas figuras e cores com nossos olhos, quando ouvimos sons agradáveis com nossos ouvidos, quando sentimos a fragrância com nosso nariz, quando degustamos a doçura das coisas com nossa língua, ou quando tocamos as coisas macias com nossas mãos, nós não nos apegamos às coisas atraentes nem alimentamos repulsa pelas coisas desagradáveis. Aprendemos a guardar cuidadosamente destes cinco sentidos. É por este ensinamento do Abençoado que os jovens discípulos podem manter puros suas mentes e corpos.

Milhares de velas podem ser acesas com uma única vela, a qual não terá sua vida diminuída por causa disso. A felicidade nunca decresce por ser compartilhada.

É difícil atender o ensinamento de Buda;
É difícil não desejar as coisas que são belas e atraentes;
É difícil permanecer inocente quando se é tentado pelas coisas repentinas;
É difícil manter-se humilde;
É difícil suportar a disciplina que leva à Iluminação;
É difícil encontrar e aprender um bom método.

Os bons e os maus homens diferem-se uns dos outros por sua natureza. Os maus não reconhecem nas ações erradas um erro e se este erro for trazido à sua atenção, eles continuarão a praticá-lo e desprezarão todo aquele que se advertir sobre seus maus atos. Os bons e sábios homens são sensíveis ao que é certo e errado, param de fazer algo tão logo percebem que está errado e são gratos a todo aquele que lhes chama atenção sobre coisas erradas.

Suponhamos um homem trespassado por uma flecha envenenada e que seus parentes e amigos tenham resolvido chamar um cirurgião para retirar a seta e pensar sobre a ferida.

Mas o ferido objetou, dizendo: "Esperem um pouco. Antes que retirem a flecha, quero saber quem a tirou. Foi homem ou mulher? Foi algum nobre ou camponês? De que era feito o arco? O arco que atirou a flecha era grande ou pequeno? Era ele feito de madeira ou bambu? De que era feita a corda do arco? Era ela feita de fibra ou tripa? A seta era de rota ou junco? Que penas eram usadas? Antes que extraiam a seta, quero saber tudo a respeito dessas cosia."

A resposta à indagação se o universo tem limite ou se é eterno pode ser relegada, até que um meio de extinguir os fogos do nascimento, velhice, doença e morte seja encontrado. Diante da lamentação, tristeza, sofrimento e da dor, deve-se primeiro procurar um meio para solucionar estes problemas e dedicar-se à prática deste meio.

No capítulo "O caminho da realização prática", uma série de parábolas sobre pessoas que tiveram muita fé e confiança, e se esforçaram muito, abandonando a comodidade para manter firmeza na compaixão e boa vontade. Pessoas que uniram a paciência com a determinação para não aceitar o sofrimento. Parábolas sobre pessoas que se sacrificaram pela verdade, enfrentaram não só a carência material e rigor mental da ascese, mas também passaram por mortificações físicas.

Aqueles que buscam a Iluminação devem fazer de suas mentes um castelo e decorá-lo. Devem abrir de par a par os portões do castelo de suas mentes para, respeitosa e humildemente, convidar Buda a entrar em sua recôndita fortaleza, aí lhe oferecendo o fragrante incenso da fé, e as flores da gratidão e alegria.

Comentário: fé e segurança são as melhores companheiras, mas também se deve manifestar regozijo por receber o ensinamento de Buda, e gratidão através da caridade e compaixão.

Considerar os sentidos como fonte de sofrimento, quaisquer que possam ser seus sentimentos de dor ou prazer. 

A prática da Tolerância ajuda-nos a controlar a mente temerosa e irada; a prática do Esforço ajuda-nos a ser diligentes e fidedignos; a prática da Concentração ajuda-nos a controlar a mente dispersiva e fútil; e a prática da Sabedoria transforma a mente entrevada e confusa em uma mente clara e de penetrante introspecção.

Um rio começa como um pequeno riacho e fica cada vez mais largo, até desembocar no vasto oceano. Como estes exemplos, se um homem treinar com paciência e perseverança, seguramente, obterá a Iluminação.

Auto-depreciação: queimar o ego;
respeito pela virtude do outro: espelhamento.

Sobre a fraternidade dos irmãos sem lar:

Deve-se usar velhas e surradas roupas; mendigar o próprio alimento; ter como lar o local onde a noite os encontra, sob uma árvore ou sobre uma rocha; usar somente um especial remédio legado pela Fraternidade.

Carregar uma tigela na mão e ir de casa em casa é a vida de um mendigo, mas um irmão não é induzido por outros a assim fazer, ele não é forçado a isso pelas circunstâncias ou pela tentação. Ele o faz de livre e espontânea vontade, porque sabe que uma vida de fé o afastará das delusões, ajudá-lo-á a evitar o sofrimento, e o conduzirá rumo à Iluminação.

Comentário: quero usar a ascese do irmãos sem lar como parâmetro positivo para estudar os moradores de rua, isto é, estou nivelando por cima. Assim poderei ressaltar seus pedaços de sabedoria, bem como a degradação que surge daquele meio de vida. Ainda assim, vou queimar uma pedra de crack e escrever um relato sobre os delírios dos moradores de rua. Preciso voltar na maloca...

À noite deve reservar um tempo para uma tranquila meditação e para uma pequena caminhada antes de se recolher. Para um sono reparador, deve repousar sobre o lado direito, com os pés juntos, e ter como último pensamento a hora em que desejar levantar-se de madrugada. Deve reservar uns minutos, logo de manhã, para a meditação e para um pequeno passeio.

Eles não temem a morte futura, já que acreditam no renascimento na Terra de Buda. Desde que têm fé na verdade e santidade dos ensinamentos, eles podem expressar seus pensamentos livres de temor.

Comentário: se eu acredito, não tenho medo de expressar.

Aqueles que não acreditam nos ensinamentos de Buda têm uma visão estreita e, consequentemente, uma mente perturbada. Mas, se aqueles que acreditam no ensinamento de Buda, acreditando que há uma grande sabedoria e uma grande compaixão envolvendo todas as coisas, não se perturbarão com ninharias.

Aqueles que seguem o ensinamento de Buda, porque entendem que tudo é caracterizado pela "não-substancialidade", não tratam levianamente as coisas que entram na vida de um homem, mas as aceitam como e para o que elas são, e tentam fazê-las dignas de Esclarecimentos.

Não devem pensar que este mundo não tem significado e que está cheio de confusão, já que o mundo da Iluminação é cheio de significado e de paz. Devem, antes, experimentar o caminho da Iluminação em todas as coisas deste mundo.

Comentário: sunyata (vacuidade = ausência de dualidade, transcendência) é diferente de niilismo, uma vez que compaixão, bondade e sabedoria são virtudes da mente que busca a Iluminação.

Se um homem olhar o mundo com os olhos corrompidos e ofuscados pela ignorância, ele o verá cheio de erros, mas se olhar com a clara sabedoria, o verá como o próprio mundo da Iluminação.

O fato é que há apenas um mundo, não dois, um sem significado e o outro cheio de significado, ou um bom e o outro mau. Os homens levados por sua faculdade discriminadora, insistem em pensar que há dois mundos.

Se eles pudessem se livrar destas discriminações e conservar suas mentes puras, com a luz da sabedoria, então, poderiam ver apenas um único mundo, no qual tudo tem o seu significado.

Comentário: niilistas não passarão.

Os leigos devem purificar suas mentes de todo o orgulho e alimentar a humildade, a cortesia e a serventia. Suas mentes devem ser como a dadivosa terra que nutre tudo imparcialmente, que serve sem se queixar, que sofre pacientemente, que está sempre zelosa, que encontra a maior alegria em servir aos pobres, plantando em suas mentes as sementes do ensinamento de Buda.

Comentário: a terra nutre!

É errado pensar que os infortúnios vêm do leste ou do oeste, porque eles se originam na própria mente. Portanto, é tolice proteger-se contra os infortúnios vindos de fora e deixar descontrolada a mente.

Os "seis orifícios" que causam a perda da riqueza são os desejos pelas bebidas intoxicantes e tolo comportamento; estar acordado até altas horas da noite, desperdiçando a mente em frivolidade; viciar-se em espetáculos musicais e teatrais; jogar; associar-se às más companhias; negligenciar seus deveres.

Por outro lado, o homem não deve considerar o dinheiro que ganhou como totalmente seu. Parte deve ser compartilhada com os outros, outra parte deve ser economizada para qualquer emergência, outra parte deve ser separada para as necessidades da comunidade, sendo que algum dele deve ser dedicado às necessidades religiosas.

Sempre se deve lembrar que nada no mundo pode ser estritamente considerado como "meu". Tudo o que chega a uma pessoa vem movida pela combinação das causas e condições, ela pode conservá-lo apenas temporariamente e, portanto, não deve usá-lo de forma egóica ou para indignos propósitos.

Receberei cortesmente a todos, dar-lhes-ei o que precisarem, falarei afetuosamente com eles; considerarei as suas circunstâncias e não a minha conivência; tentarei beneficiá-los sem parcialidade.

Comentário: a pessoa é praticamente um fractal.

O ressentimento não pode ser satisfeito com ressentimento; somente pelo esquecimento se pode removê-lo.

Conclusão: se descemos à matéria como alma condicionada, ou foi para realizar uma missão, ou por ignorância mesmo dos caminhos do pós-morte. De qualquer maneira, aqui é onde as coisas se realizam, e o ensinamento do Buda é o mínimo que eu devo buscar para evitar o sofrimento da vida material, seja para me unir ao Buda no futuro, ou para concretizar realizações aqui mesmo.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Para não se identificar aos pensamentos, e deixar a mente fluir: conselhos do Buda todo compaixão e bondade

Na cadeia de originação do sofrimento estudada no Budismo, upadana vem depois da ignorância e do desejo, e é o precursor deste ser (o ser condicionado na existência cíclica do samsara). A ignorância acerca da condição original da mente - que é luminosa e não-dual - reifica a percepção e faz com que surja o constructo sujeito-objeto. Isto permite que um sujeito logo deseje objetos. Ao se desejar, surge o apego aos objetos que temos conseguido ou, sobretudo, às sensações que estes objetos produzem, as quais são também pensamentos ou eventos mentais (o principal destes pensamentos é a crença numa identidade sólida à qual se aderem as sensações).


Um homem de mil anos atrás, e até mesmo um homem de 100 anos atrás não teria tantos problemas para manter a mente clara e relaxada, isto é, sem tantos desejos e apegos - já que não eram constantemente bombardeados por estímulos sensoriais que buscam capturar sua atenção. A publicidade, o entretenimento e a tecnologia digital são sempre potencial para encher o tanque de gasolina com mais upadana (=apego).

Ao simplesmente observar sem se distrair nem se apegar - deixando somente que os processos mentais surjam e se dissolvam em seu próprio tempo - com o tempo os pensamentos nebulosos e sutis se desvanecem e se dissipam no espaço da mente, a consciência do substrato. Os pensamentos ficam cada vez mais ligeiros, perdem seu poder sobre ti, e desaparecem. Se não te apegas,a mente por si só se curará e se dissolverá no substrato.

A mente do substrato é alaya vijnana, o terreno neutro do qual surge nossa experiência e nossa própria psique. Não temos na psicologia ocidental um termo equivalente, já que alaya é mais que a mente inconsciente, é também o repositório do karma de todas nossas vidas passadas, ou nossa continuidade mental. É também o espaço base no qual são codificados os outros planos do samsara na cosmologia budista: o mundo da forma (rupadhatu) e o mundo sem forma (arupadhatu), onde habitam os devas (em um estado de paz completa).
Existe um nível mais profundo da mente, ao menos para algumas escolas budistas, que é a consciência primordial, rigpa, inseparável do dharmakaya, a realidade absoluta.

As condições mentais das quais brotam o sofrimento e as enfermidades são acirradas pela reiteração de certa forma de pensar e se identificar com os pensamentos. A maneira pela qual nossa atenção é capturada pelas ideias que temos de nós mesmos é a raiz da maioria das enfermidades mentais. Se não subscrevemos à visão não dualista que separa a mente do corpo, então podemos afirmar que se apegar é o que nos faz doentes, e soltar é o que nos cura. O pensamento pode ser considerado como uma energia psicofísica, um tipo de combustível cujo canal deve se deixar correr sem obstrução. 

Traduzido e adaptado de: http://pijamasurf.com/2017/01/la_ciencia_interna_de_no_aferrarse_a_los_pensamientos_la_clave_de_la_salud_fisica_y_mental/

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Conhecimento obtenível pela intuição, mas que auxiliado pelo texto eu realizei.

Paradigma da Física Quântica: a "realidade" depende do ponto de vista, e no limite todos os resultados a um experimento são possíveis.

A Física Quântica, por sua vez, sugere que os átomos não são realmente coisas, são probabilidades ou tendências que surgem em relação a nossa observação, isto é, a percepção e objeto são interdependentes, os átomos não têm existência absoluta ou separada de nossa interação com eles (ao menos em grande parte das interpretações, como a de Heisenberg e Bohr). Assim, tudo o que chamamos "coisas" está feito de "não-coisas", e portanto é absurdo falar que há um mundo objetivo, concreto e material lá fora.

Avydia: ignorância ou desconhecimento da natureza una da consciência (isto quer dizer que as pessoas têm mente com mesma frequência e a comunicação de pensamentos e emoções é possível,sim!)

O budismo defende que o corpo é criado pela mente, especificamente pela confusão (avidya) que é produzida quando a mente não se reconhece como a fonte de todos os fenômenos que surgem. O universo por natureza é criativo, e fenômenos estão constantemente surgindo - o que o budismo ensina é que estes fenômenos são correspondentes à mente, são não-duais com a cognição. O processo de materialização é produzido quando a mente concebe esta criatividade/cognitividade (luz/consciência indivisível), que é infinita, como algo separado de si mesma. Assim surge o constructo sujeito-objeto que dá lugar ao samsara.

O mundo material é manifestação residual de movimentos noutra realidade.

Todas as aparências sempre são nada mais do que o ornamento da pureza primordial e a espontaneidade luminosa. Quando a cognitividade luminosa da sabedoria inata se confunde e percebe a si mesma como uma entidade subjetiva(=dual, dicotômica entre sujeito e objeto), veste-se de um corpo, um mundo, um reino... 

A mente desencarnada nos reinos loka

Ao morrer, segundo ensina o budismo tibetano, a consciência separa-se do corpo e entra em espaços intermediários chamados bardos, onde se apresentam diferentes imagens que são projeções da mente, nas quais se tem a oportunidade de reconhecer a "luz clara", esta cognitividade luminosa que é a manifestação primordial (o Dharmakaya). Todavia, poucos são capazes de reconhecer os próprios fenômenos de sua mente, por questões kármicas e por falta de prática. Assim, depois de um certo processo, a mente se identifica com uma das imagens que aparecem e toma um corpo, por exemplo, vê um casal tendo intercurso sexual e se identifica com a mulher ou com o homem e então encarna. 

Budismo in a nutshell: a vacuidade cujo karma é nulo está descompromissada com  a separação entre sujeito-objeto.

Um sofrimento que emerge da carência de plenitude do estado primordial da mente, que é integração em si mesmo da totalidade (diz-se que o corpo búdico é a totalidade do universo como desprendido de sua própria energia). A não-dualidade necessariamente anula a formação de um sujeito e um objeto, de alguém que percebe e de algo que é percebido. Existe um estado, que é a própria realidade, no qual há cognição, há gozo, há existência mas não há nenhuma separação (não há um eu com seu universo de objetos) e portanto não há sofrimento nem desejo. O universo segue aparecendo, despregando-se em sua infinita variabilidade, mas estas aparições são a unidade indivisível da cognição (vidya em sânscrito, rigpa em tibetano) e a manifestação, ou a unidade da luminosidade e do espaço. A forma é vacuidade; a vacuidade é forma.



Síntese: a manifestação do espírito em forma de matéria consiste em desengano guiado por desejo e karma, que produz o desprendimento do vácuo-uno, criando sujeito e objeto.

O jogo de causa e efeito condiciona esta energia para que apareça como formas. Estas formas são nosso mundo e ser. O mundo, e todos os mundos, coincidem com a essência da cognitividade [awareness], que é não-nascida e imortal, e está absolutamente livre das implicações da forma e do limite. O mundo manifesto não é outra coisa que a essência, mas esta essência não está limitada pela forma ou pelas condições dos mundos manifestos. Alguém poderia dizer que o mundo e todos os mundos sustentam-se como forma pela intenção condicionada e habitual da consciência. Nosso mundo particular se sustenta conjuntamente pela intenção dos seres humanos. Os mundos de outros seres sustentam-se pela força de sua intenção condicionada. As estruturas da existência não são "reais" em um sentido último. São não-realidade públicas, sonhos lúdicos esculpidos pela essência e modelados como formas. São a irradiação da potência pura, momentaneamente esculpidos pela intenção e mantidos em um padrão aparentemente coerente pelo karma ou os padrões da consciência habituada.

Traduzido e adaptado de: http://pijamasurf.com/2016/12/como_la_mente_crea_el_cuerpo/

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

O Buda sobre como respirar para meditar


Foi o buda que incorporou a respiração dentro de um sistema com metodologia precisa para alcançar a cessação do sofrimento, e a combina com uma investigação intelectual (shamatha e vipassana). Hoje em dia se popularizou o que se conhece como mindfulness, que é uma adaptação da meditação budista - principalmente da atenção consciente, do cultivo do samadhi -  a um contexto secular.

Plavras-chave: respiração, meditação, samadhi e vipassana

Um esquema avançado de meditação analítica que se deriva primeiro da observação da respiração e depois, com grande naturalidade, de uma série de intuições ou descobrimentos que nascem ao dirigirmos esta mesma atenção plena, livre de conceitos e obscurecimentos, à própria mente. De certa forma, a calma mental (o samadhi) ao se produzir naturalmente, gera uma lúcida introspeção (o insight ou vipassana); ou, em outras palavras, se alguém aprende a respirar, de maneira natural a respiração pouco a pouco nos irá levando à sabedoria (o prana, ar e energia são afinal de contas a mesma consciência). Se em contexto secular esta meditação é utilizada somente para acalmar a mente ou facilitar a concentração, se elevada a sua última consequência, contém a base para alcançar a sabedoria, que é sempre experiência direta e não intelectualidade abstrata.

O Buda ensina que quando a atenção plena à respiração é praticada adequadamente e se utiliza um método de interrogação a partir da observação, não deturpada por conceitos, prejuízos ou hábitos que escurecem a cognição, então surgem os sete fatores da iluminação, de maneira progressiva: sati (mindfulness), dhamma vicaya (análise ou investigação), viriya (energia ou persistência), pīti (a felicidade ou o prazer associados à calma), passadhi (serenidade ou tranquilidade), samadhi  e finalmente upekkhã (equanimidade). Esta é a transformação que atravessa a mente através da disciplina meditativa.

O último é a equanimidade, a qual fala de uma sabedoria, fruto da experiência da impermanência através da observação do corpo e dos fenômenos: como a natureza de todos os fenômenos é impermanente, não há verdadeira motivação para reagir a eles ou perseguir as sensações que eles nos causam, o que nos livra do sofrimento da avidez, do apago, da aversão, etc). 

(De fato se assemelha ao que Anton Lavey comenta na bíblia satânica: monges que sentam sobre os próprios joelhos o dia inteiro, a não fazer nada além de comer arroz. Entretanto não vou querer compreender com este tom, porque sei do que se trata este ponto budista: a vacuidade original que é potência para a criação, o que a Física Quântica confirma, e que além do mais é um baita sedativo para as emoções. A vida é um sonho!)

A objetividade do método budista: uma ciência neutra para estudar a mente. Então se fulaninho não acredita em Deus, mas também não pratica meditação, então é apenas um ignorante. Não há como observar as crateras da Lua sem um microscópio; o cientista tem seu equipamento...


É aqui que se revela uma "ciência budista" ou uma ciência contemplativa; o que permite fazer tais experimentos, que são ao mesmo tempo um entretenimento, é que a mente se encontra em calma (isto é equivalente à objetividade dentro do método científico). Nestes procedimentos são revelados os princípios da filosofia budista - como a impermanência ou transitoriedade - dentro do experimento que é a meditação, para que possam ser observados de maneira conclusiva no próprio organismo, e não sejam somente um ensinamento que o adepto escuta, sem que se convertam em verdades da própria experiência.

As quatro aplicações do mindfulness são: primeiro a contemplação do corpo ( a observação dos elementos do corpo, a postura e as sensações puramente físicas da respiração); segundo a contemplação dos sentimentos (as sensações que ocorrem no corpo, sejam de prazer, dor e demais que são observadas sem identificação); terceiro, a observação da mente (esta é a observação da atividade mental, emoções e pensamentos e a consciência que se observa a si mesma) e quarto, a contemplação dos dharmas ou objetos mentais (aqui se observam distintos estados mentais, como os cinco obstáculos, os cinco agregados, os sete fatores da iluminação e as quatro nobre verdades. Sempre com base na respiração.

Traduzido e adaptado de: http://pijamasurf.com/2016/11/el_buda_sobre_como_respirar_para_meditar/

Desconstruindo a ilusão de que somos egos e de que existimos separados

Um dos ensinamentos centrais do budismo é que o eu individual que aparece a nós tão sólido e estável não existe por conta própria na realidade, e sim que emerge com nossos pensamentos, conceitos e relações. Como tal, não pode encontrar-se em nenhum lugar específico e só se mantém enquanto reificamos conceitos de ser tal pessoa, com estas ou aquelas características.

Palavras-chave: budismo, vacuidade, psicologia, ego, holístico, conexão.

O limite do corpo humano é a pele?

A palavra indivíduo significa "indivisível", mas não há nada em nós que nos seja indivisível: nosso corpo está formado por uma pele e órgãos que por sua vez estão formados por tecidos, que estão formados por moléculas que estão formadas por átomos... Mas os átomos, segundo a física moderna, não são realmente coisas, são ondas de informação que surgem e desaparecem. Agora bem, se a isto respondermos que não estamos em nenhuma parte em específico além mesmo da totalidade do nosso corpo, então surge a pergunta de até onde chega nosso corpo, já que nossa pele é permeável e estamos constantemente sendo penetrados por milhões de microrganismos, pela luz do sol e diferentes ondas de espectro eletromagnético; mesmo assim estamos respirando e recebendo do ambiente numerosas influências sutis. Assim, nosso corpo não é muito estável, não tem limites definidos que podem fixar nossa identidade. Podemos dizer então que na realidade somos nossa mente, mas onde está nossa mente? Segundo o mestre Tsoknyi Rinpoche:

Não há um lugar a partir do qual a essência da mente provenha ou surja, não há um lugar aonde vai ou onde desapareça, e não há um lugar onde agora mesmo se encontre. Ainda assim, está presente em todas as partes, de uma maneira que a tudo penetra. Assim sua essência é a vacuidade. (Vacuidade como princípio de potência criadora. Lembrar da espuma quântica.)
O ego é construído pelo diálogo interno e pelos rótulos que recebemos.

James Low observa que a mente é como o espaço, uma conhecida metáfora do budismo tibetano. Como o espaço, é algo que não se pode agarrar, não é uma coisa; é de onde surgem os fenômenos, é potência ilimitada (somos espaço que sonha com ser sólido). O ego tampouco é uma coisa, mas ao nos apegarmos a ele, ao crer que é uma coisa, surge uma sensação aparente de solidez - o que para os tibetanos é um predomínio do elemento terra. Temos, ao nos apegarmos reiteradamente a esta noção (a esta tensão) de ser um eu individual, a ilusão da durabilidade, sustentação e previsão. Isto de certa maneira nos dá segurança, mas por outro lado nos limita e nos faz rígidos. Ao sermos sólidos e termos uma identidade definida, as coisas podem nos atingir: qualquer sucesso que nos ocorra nos marca, qualquer carapuça que nos empregam, nós usamos. Se fôssemos como o espaço, nada permaneceria, da mesma maneira que a ave não deixa rastros no céu. Ao nos concebermos sólidos, independentes, separados, como objetos rígidos, como o elemento terra, trancamo-nos no nosso próprio mundo; concretizando a fantasia de nossa descrição do mundo, do nosso diálogo interno, de existir separados diante de uma infinidade de objetos constantemente a mudar, que determina nosso prazer ou dor.

Temos de viver com a pesada responsabilidade de administrar nossa própria personalidade. Cuidar do nosso prestígio, da opinião que acreditamos que as outras pessoas fazem da gente, e também temos de administrar e reforçar os conceitos que temos de nós mesmos, e não só os positivos, mas também os negativos. Chegamos então a existir como sujeitos e objetos, os dois ao mesmo tempo fragmentados - o sujeito que tem a experiência, e os objetos conceituais que temos criado, acreditando que somos de certa maneira, o qual evidentemente gera uma enorme preocupação e gasto de energia, já que temos que andar cuidando e dialogando com todos estes objetos que sustentamos com nossos pensamentos. O comentário interno que temos sobre nós mesmos é uma manifestação da nossa ansiedade quanto aos comentários que acreditamos que os outros fazem de nós mesmos e também dos comentários que fazemos sobre outras pessoas. Isto implica estarmos permanentemente confundindo o mapa com o território, já que sustentamos diálogos virtuais com pessoas que não estamos vendo e em situações que não estamos vivendo.

Nossa identidade surge com estes diálogos internos e da retroalimentação que temos com o mundo e com as demais pessoas. Está se recriando constantemente, em cada uma destas interações. Sugere-se que é por isso que nos assusta ficarmos sozinhos em algum lugar sem fazer nada. Isto nos coloca em uma crise de identidade. Pode ser uma oportunidade de observar nossa mente e entender como nossos pensamentos nos levam constantemente a nos identificar com objetos e conceitos, ou simplesmente nos colocarmos num estado de angústia porque não podemos nos retirar de nosso conteúdo mental ao nos projetar sobre um objeto familiar.

Traduzido e adaptado de: http://pijamasurf.com/2016/11/desconectados_la_interesante_tendencia_en_europa_de_abandonar_internet/

terça-feira, 8 de novembro de 2016

As quatro qualidade do amor verdadeiro, segundo Thich Nhat Hanh



Introdução

"O que posso fazer para me certificar de que estarei com Brahma depois que eu morrer?" e o Buda respondeu, "Já que Brahma é a fonte do Amor, para habitar com ele você deve praticar o Brahmaviharas-amor, compaixão, alegria e equanimidade."

Vihara é uma abóboda ou uma habitação. Amor em sânscrito é maitri; em Pali é metta. Compaixão é karuna em ambos os idiomas. Alegria é mudita. Equanimidade é upeksha em sânscrito e upekkha em Pali. Os Brahmaviharas são os quatro elementos do amor verdadeiro. Eles são ditos "imensuráveis" porque se você os pratica, eles crescerão em você a cada dia e abrangerão o mundo inteiro. Você se tornará mais feliz, e todas as pessoas ao seu lado também se tornarão mais felizes.

Se nós aprendermos caminhos para praticar o amor, compaixão, alegria e equanimidade, saberemos como curar as doenças da raiva, mágoa (="sorrow"), insegurança, tristeza (="sadness"), ódio, solidão e apegos doentios. Amor, compaixão, alegria e equanimidade são a própria natureza de uma pessoa iluminada. Eles são os quatro aspectos do amor verdadeiro dentro de nosso próprio self, dentro de todas as pessoas e todas as coisas.

Amor (Maitri/Metta)

O primeiro aspecto do amor verdadeiro é maitri, a intenção e capacidade de oferecer alegria e felicidade. Para desenvolver esta capacidade, nós temos que praticar o olhar e a audição profundos para que saibamos o que fazer e o que não fazer para fazer os outros felizes. Se você oferecer à sua amada alguma coisa que ela não precisa, isto não é maitri. Você deve observar a real situação dela, ou então você pode oferecer algo que possa trazer a ela a infelicidade.

Sem compreensão, seu amor não é amor verdadeiro. Você deve olhar profundamente para ver e entender as necessidades, aspirações e sofrimentos daquele que você ama. Nós todos precisamos de amor. Amor nos traz alegria e bem-estar. É tão natural quanto o ar. Nós somos amados pelo ar, nós precisamos de ar para estarmos felizes e bem. Nós somos amados pelas árvores. Nós precisamos de árvores para sermos saudáveis. Para sermos amados, nós temos de amar, o que significa que temos de entender. Para que o nosso amor continue, nós temos que realizar a ação ou não-ação apropriadas para proteger o ar, as árvores e a nossa amada.

Maitri pode ser traduzida como amor ou bondade amorosa. Alguns mestres budistas preferem "bondade amorosa" pois acham a palavra "amor" muito perigosa. Mas eu prefiro a palavra "amor". Palavras às vezes ficam doentes e nós temos que as curar. Nós temos usado a palavra "amor" para significar apetite ou desejo, como em "Eu amo hambúrguer." Nós temos que usar a linguagem mais cuidadosamente. "Amor" é uma bela palavra; nós temos que restaurar o seu significado. A palavra "maitri" tem raízes na palavra "mitra", que significa amigo. No budismo, o principal significado de amor é amizade.

Nós todos temos sementes do amor em nos. Nós podemos desenvolver esta maravilhosa fonte de energia, nutrindo o amor incondicional que não espera nada em retorno. Quando entendemos profundamente alguém, mesmo alguém que nos causou dano, nós não podemos resistir a lhe amar. O Buda Shakyamuni declarou que o Buda do próximo eon será nomeado "Maitreya, o Buda do Amor."

Compaixão (Karuna)

O segundo aspecto do amor é karuna, a intenção e capacidade de aliviar e transformar o sofrimento para aliviar a mágoa. Karuna é usualmente traduzida como "compaixão" mas isto não é exatamente correto. "Compaixão" é composta de com ("junto com") e paixão ("sofrer"). Mas nós não precisamos sofrer para remover o sofrimento de outra pessoa.

Para desenvolver compaixão em nós mesmos, temos de praticar a respiração auto-consciente, audição e visão profundas. O Sutra Lótus descreve Avalokiteshvara como o bodhisattva que pratica "olhando com os olhos da compaixão e ouvindo profundamente os suspiros do mundo." Compaixão contém preocupação profunda. Você reconhece que uma pessoa está sofrendo, então você se senta próximo a ela. Você a olha e a ouve atentamente para estar capacitado a tocar a dor dela. Vocês estão em profunda comunicação, comunhão com ela, e isso sozinho traz algum alívio.

Palavras, ações ou pensamentos compassivos podem reduzir o sofrimento de outra pessoa e trazer alegria a ela. Uma palavra pode oferecer conforto e fé, destruir a dúvida, ajudar alguém a evitar um erro, reconciliar um conflito, ou abrir a porta para a liberação. Uma ação pode salvar a vida de uma pessoa ou ajudá-la a tomar vantagem de uma oportunidade rara. Um pensamento pode causar o mesmo, porque pensamentos sempre levam a palavras e ações. Com compaixão em nosso coração, todo pensamento, palavra e ato pode produzir um milagre.

Quando eu era aprendiz, não conseguia entender por que, se o mundo está preenchido de sofrimento, o Buda tem tal sorriso bonito. Por que não está ele perturbado pelo sofrimento? Depois eu descobri que o Buda tem compreensão suficiente, calma e força; é por isso que o sofrimento não o oprime. Ele é capaz de sorrir ao sofrimento porque sabe como lidar como lidar com isso e como transformá-lo. Nós devemos estar atentos ao sofrimento, mas reter nossa clareza, calma e força para que nós possamos transformar a situação. O oceano de lágrimas não pode nos afogar se karuna está conosco. É por isso que o sorriso do Buda é possível.

Alegria (Mudita)

O terceiro elemento do amor verdadeiro é mudita, alegria. Amor verdadeiro sempre traz felicidade para nós mesmos e para aquele que amamos. Se nosso amor não traz alegria para nós dois, não é amor verdadeiro. Comentadores explicam que a felicidade relaciona-se duplamente a corpo e mente, enquanto alegria relaciona-se primeiramente à mente.

Esse exemplo é frequentemente dado: alguém está viajando pelo deserto e vê um córrego com água fresca e experimenta a alegria. Ao beber a água, ele experimenta a felicidade. Ditthadhamma sukhaviari significa "alegremente habitar no momento presente." Nós não nos apressamos para o futuro; nós sabemos que tudo está aqui no momento presente.

Muitas pequenas coisas podem nos trazer tremenda alegria, como a consciência de que temos os olhos em boa condição. Nós abrimos nossos olhos e podemos ver o céu azul, as flores violetas, as crianças, as árvores, e muitos outros tipos de formas e cores. Habitando em atenção plena, nós podemos tocar estas maravilhosas e refrescantes coisas, e nossa mente de alegria emerge naturalmente. Alegria contém felicidade e felicidade contém alegria.

Equanimidade (Upeksha)

O quarto elemento do amor verdadeiro é upeksha, que significa equanimidade, tranquilidade, desapego e capacidade de libertar. Upa significa "acima", e iksha significa "olhar". Se seu amor tem apego, distinção, preconceito ou apego, não e amor verdadeiro.

Pessoas que não entendem o Budismo às vezes pensam que upeksha significa indiferença, mas a verdadeira equanimidade não é fria nem indiferente. 

Upeksha tem a marca chamada samatajñana, "a sabedoria da igualdade", a habilidade de ver todos como iguais, sem discriminação entre nós e os outros. Em um conflito, mesmo que estejamos profundamente preocupados, nós nos mantemos imparciais, habilitados a amar e entender ambos os lados. Livramo-nos de toda discriminação e preconceito, e removemos todas as fronteiras entre nós mesmos e os outros.

Enquanto vermos nós mesmos como aqueles que amam e os outros como os que são amados, enquanto nos valorarmos mais do que os outros ou vermos nós mesmos como diferentes dos outros, nós não alcançaremos a verdadeira equanimidade.  Nós temos que nos colocar "por debaixo da pele da outra pessoa" e nos tornarmos um com ela se desejarmos entender e realmente a amar.  Quando isto acontece, não há self nem tampouco outro.

Sem upeksha, seu amor pode tornar-se possessivo. Uma brisa de verão pode ser muito refrescante, mas se tentarmos colocá-la numa lata para que possamos tê-la inteiramente para nós, a brisa morrerá. Nosso amado é o mesmo. Ele é como uma nuvem, uma brisa, uma flor. Se você o aprisiona numa lata, ele morrerá. Ainda assim, muitas pessoas fazem exatamente isso. Eles roubam seus amados de sua liberdade, até que ele não possa mais ser ele mesmo. Eles vivem para a auto-satisfação e usam os seus amados para ajudar a cumprir este desejo. Isto não é amor, é destruição.

Você diz que o ama, mas não entende suas aspirações, suas necessidades, suas dificuldades, ele está numa prisão chamada amor. Amor verdadeiro permite que você preserve sua liberdade e a liberdade de seu amado. Isto é upeksha.

Para o amor ser amor verdadeiro, deve conter compaixão, alegria e equanimidade. Para a compaixão ser compaixão verdadeira, deve conter amor, alegria e equanimidade. Alegria verdadeira deve conter amor, compaixão e equanimidade. E equanimidade verdadeira deve ter amor, compaixão e alegria.

Nós devemos olhar profundamente e praticar estas quatro aspectos para trazermos o amor verdadeiro em nossas vidas e nas vidas e quem amamos.

Traduzido e adaptado de: https://creativesystemsthinking.wordpress.com/2015/02/15/the-four-qualities-of-love-by-thich-nhat-hanh/



quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Princípios divinatórios da yoga

O ascetismo indiano impunha a relação do eu com o si-próprio, em um esforço místico de aproximar o ser humano a Deus. 

A yoga era praticada desde a proto-história indiana, e seus ensinamentos eram mantidos por um antigo colégio de sábios videntes. Através de práticas de ascetismo, o yogue reconhece a sublime interdependência entre o eu-autônomo e a consciência divina. Intensificada esta sensação de interdependência, a ilusão egoísta do eu-autônomo é desfeita, dando lugar à noção de criatura passa a ser emerge na consciência do yogue.

A noção de criatura é holística à medida que conecta o ser humano a uma Inteligência e Sabedoria superiores, como elemento menor de um grande arranjo ou desenho cósmico. A sociedade deixa de aparecer como um fenômeno a serviço do indivíduo.

O asceta reconhece que as todas as circunstâncias e condições de sua vida presente são resultado de decisões e escolhas realizadas previamente. Este princípio ativo-reativo, também conhecido como a Lei do Karma, explica as discrepâncias entre talentos individuais e coloca o indivíduo como responsável por seu destino à medida que é livre para exercer em ação a sua vontade. A análise profunda de causas e consequências revela-se coerente também ao nível do pensamento, pois é através de energias psíquicas positivas que a mente humana estabelece uma realidade própria que seja satisfatória.

A cosmogênese de uma sociedade holística geralmente estabelece que os seres vivos sejam realizados por graça divina. A dieta que assassina um exemplar vivo do princípio anímico universal, quando em consubstanciação no corpo humano, é causa de desequilíbrios. Este o princípio de ãhimsa - ou princípio da não-violência estabelece que o ser humano, ao se alimentar de ser vivo assassinado, está assassinando a uma fragmento diminuto, mas da mesma substância de Deus; e além disso, quando seu alimento vegetal não é consubstanciado em oferenda, então é como se estivesse roubando ao próprio Deus.

Com a chegada da cultura Ariana à Índia, no entanto, a presença de sacerdotes brâmanes colaborou para hierarquizar sectariamente a conexão do ser humano a Deus. A prática do eu-asceta foi substituída pela conformação do eu-ritual, encontrado nas mesas sacrificiais onde o sacerdote intermediava o contato entre Deus e ser-humano. 

A possessão divina encontrada no próprio corpo e na consciência do asceta, através de uma busca mística interior, foi substituída pela cerimônia ritual, que transmuta a relação indivíduo-Deus para uma atualização do contexto temporal. O objetivo da cerimônia sacrificial realizada pelo sacerdote era produzir alteração no conteúdo religioso do tempo, estimulando prosperidade, prudência, etc dentro do tempo cotidiano, e renovando a vida sobre a morte.

Se na sociedade holística o potencial divinatório é localizado no conjunto corpo-alma, que deve ser trabalhado em conexão com os auspiciosos objetivos da intencionalidade divina, na sociedade védica o sagrado é verificado não no corpo mas sim no próprio sistema hierárquico de castas, o qual tem na figura do sacerdote um pólo emanador de bênçãos contextualmente orientadas.

Vemos portanto como o asceta, sendo um indivíduo renunciador por excelência, consegue intensificar o sentimento de dependência existente entre a Consciência Divina e o Eu-Interior humano, estabelecendo a noção de criatura, que num processo de identificação mística produz a sacralização do ser humano em seu próprio corpo.  

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Por que se criou o Universo

Pergunta qual é o princípio de tudo isto.

A existência que se multiplicou por si mesma
Pelo puro deleite de ser,
E se projetou em trilhões de seres
Para que pudesse encontrar-se a si mesma.

Inumeravelmente.

Divindade, ou o Uno Inefável: -"Eu era um tesouro oculto, que queria ser conhecido; por isso criei o mundo, para que pudesse manifestar meu mistério a mim mesmo."

Adão não é mais que a forma divina, criada por Deus, para receber sua própria revelação - o receptáculo puro em que Ele se derrama.

-"Por isso criei as criaturas e me fiz conhecido delas, para que me conhecessem."

O amor e a sabedoria são dois aspectos do mesmo, e inseparáveis.

A criação é o espelho no qual Deus vê a si mesmo, e a aparição do ser humano (o ser humano arquetípico, Adão) não é diferente de Allah, mas enquanto tu tiveres uma existência "distinta de Allah", não conseguirás sufocar tua existência, nem conhecer a ti mesmo. O conhecimento de ti mesmo consiste em compreender que tua existência não é real e que tua existência não é nada, pois tu não és, não fostes e jamais serás.

O terceiro giro da roda do Darma, nele é onde o Buda Shakiamuni revela que todos os seres vivos têm um embrião búdico ou uma inerente natureza búdica, chamada tathagatagarbha.

Toda a vasta expansão do cosmos - uma extensão gnóstica que não faz diferença entre "ser" e "conhecer".

A mente original do sujeito é a mente absoluta, igual a Dharmakaya, ao espaço de todos os fenômenos, ao próprio corpo da deidade.

A essência mais profunda do universo, seu constituinte fundamental, é a sabedoria - as coisas estão feitas de sabedoria e para a sabedoria.

Traduzido e adaptado de: http://cadenaaurea.com/2016/06/ibn-arabi-sobre-por-que-se-creo-el-universo/



segunda-feira, 30 de maio de 2016

A vacuidade radiante, ou a natureza mágica e onírica que têm todas as coisas.

Desenvolvimento e purificação da percepção

A realidade como a conhecemos - sólida, fixa e estável - é uma ilusão. Nisto não se faz distinção: tanto a vigília quanto o sonho são irreais.

A vigília e o sonho estão em um mesmo continuum.

O mundo se assemelha ao reflexo num espelho, à lua na água.

Desde o momento de sua aparição, a natureza está livre de elaboração. A causalidade de surgimento e interrompimento aparecem como um sonho, como Maia, uma ilusão óptica que desvela a irrealidade e insustentabilidade do mundo.

Método para avançar

O discípulo deve pensar, a todo momento: "Agora é meio-dia, agora estou atravessando o pátio, agora me encontro com o mestre", e ao mesmo tempo deve pensar que o meio-dia, o pátio e o superior são irreais, são tão irreais como ele próprio e seus pensamentos.

Devemos alcançar a compreensão de que o mundo é uma aparição.

Como prática principal, medita da seguinte maneira:

O mundo exterior, suas montanhas e vales, pessoas e cidades e seres vivos,
compostos de terra, água, ar, fogo e espaço, todas as formas, sons, odores, sabores e sensações
os cincos objetos sensoriais e o mundo interior da mente-corpo e sua consciência sensorial,
 toda a experiência devem ser atendidos continuamente como um sonho.

Objetivo. Fundamento constante e real

O aspecto objetivo é refutado, e o sujeito retira-se quando a mente se aproxima das situações "como se fossem um sonho", sem poder encontrar algo substancial ao qual se aderir, então se "submerge em um espaço todopenetrante como o céu.... Desprovido de toda atividade mental compulsiva, emerge como espontânea e simples qualidade vazia."

A mente volta-se como o espaço em toda sua vastidão e vacuidade. Ao descobrir que estamos sonhando podemos viajar imediatamente a paraísos da mente.

Ontologia

Os fenômenos não têm existência verdadeira mas aparecem a todas as pessoas. Ver as aparições como mágicas, e assim abandonar o apego à existência como real, então, oferece a habilidade de alcançar a liberação. A delícia do espaço livre que conhece o grande espetáculo da existência sem formar nenhuma relação objetificante. Livre da alucinação de crer em sua realidade.

Caminho

Para estabelecer este delicioso modo de percepção, no qual nada se cristaliza, nada se coagula - o modo da contemplação pura, é sumariamente útil repetirmos todos os dias cada vez que descobrimos que estamos nos enrolando com uma situação, que identificamos um fenômeno ou um conceito no qual simplesmente cremos em sua solidez e irreversibilidade das coisas: "isto é um sonho". E que alívio que será!

É assim: todos os fenômenos são inexistentes, mas aparentam existir e são estabelecidos como várias coisas.

O sonho e a lucidez

Nossa experiência desperta é tão ilusória e fantástica como nossos sonhos. Esta é a perspectiva da vacuidade. O que significa que "os fenômenos não existem por sua própria natureza, nem subjetiva nem objetivamente...existem interdependentemente". Nos sonhos isto nos está muito claro, uma montanha, uma pessoa, um evento que acontece no "drama onírico" é claramente dependente de nossa imaginação, de nossas recordações, de eventos que vivemos anteriormente. Têm uma existência interdependente, não uma existência inerente (em si mesma).

O budismo nos diz que também tudo o que aparece na vigília são criações da mente e têm uma existência interdependente. E, da mesma maneira que é útil cobrar lucidez durante os sonhos para não sofrer por eventos que ocorram, ainda que estes evanesçam quando chega o amanhecer, alguns dos quais podem nos levar ao mais puro terror, é igualmente necessário obter um estado de lucidez na vigília para que assim não soframos por eventos que ocorrem, os quais também se evanescerão um dia.

O "eu" não é uno, mas interdependente

Quê ou o quê é este eu? Se aponta ao seu corpo, bom, pois isso é o "corpo", não o "eu". Usualmente pensamos que somos mais que somente nosso corpo, porque podemos dizer que o "eu" está no corpo e o "eu" é superior ao corpo... Mas se o "eu" está no corpo, onde no corpo é que está? Se aponta ao seu peito e diz "está em meu coração" pode estar seguro de que nenhum cardiologista visualizou um "eu" ali. Se diz que seu "eu" está no cérebro - o centro de onde se assume o centro onde reside o pensamento e o espaço central entre os seus principais órgãos sensoriais - tampouco nenhum neurocirurgião avisto o "eu" ali.

É possível no entanto que você sustente que isto é uma redução muito simplista e que existimos como algo mais completo e sofisticado - algum tipo de padrão ou coleção de partes corporais e pensamentos produzidos pelos neurônios, memórias e emoções. Mas ao afirmar isto teremos regressado à ideia budista de interdependência.

Aos cientistas de laboratório, positivistas e racionalistas: o que observamos não é a natureza em si mesma, mas sim a natureza exposta a nossos métodos de interrogação.

Apontamento conclusivo

Isto pode nos levar à conclusão de que o eu não está em nenhuma parte da existência porque está necessariamente em todas as partes, deve ser não-local, deve estar distribuído equitativamente sem um centro e desvinculado de todos as trocas e sucessos que acontecem.

A vacuidade, conceitualmente suscetível a ser confundida com o nada, é de fato um reservatório de infinitas possibilidades.

A identificação com um eu é o que impede que notemos a irrealidade das coisas, posto que ao concebermos um eu estamos necessariamente também construindo um edifício mental que nos separa de todas as demais coisas: ser um eu individual é não ser todo o mais. É o eu que crê no mundo dos objetos. E para seguir existindo, desesperadamente em um instinto de sobrevivência, nos faz crer que estes objetos, dos quais obtém sua identidade por diferenciação, são reais. Só assim o eu também é real.

Devido à condição predominante da percepção do "eu" como interno, o reino dos fenômenos manifesta-se como um algo que é outro. 

Todas as aparências sensíveis não são mais que o espaço base do ser, e são únicas com o espaço base em si mesmo, como os reflexos de todos os planetas e estrelas no oceano, que não são mais que o próprio oceano.

Gautama que chegou a ser o Buda, isto é, o Desperto, o Lúcido - à diferença de nós, que estamos dormindo ou que estamos sonhando este grande sonho que é a vida.


Traduzido e adaptado de http://pijamasurf.com/2016/05/ejercicios-de-percepcion-espiritual-2-recuerda-constantemente-esto-es-un-sueno/